Há algum tempo venho sendo provocado no sentido de desenvolver uma prática refletida em busca da justiça social. Nesse caminho, tenho levantado as seguintes questões: quais são os espaços de atuação que me cabe ocupar? O que me preocupou em determinado momento foi: minha participação pode ser de alguma forma prejudicial para alguém (sendo esse alguém justamente aquele que eu queria beneficiar com a minha ação)? Um mergulho nos textos bíblicos
A Bíblia sempre serviu para me confrontar com algo que eu encontrava na minha realidade pessoal e social. A realidade se apresentava a mim através de uma aula sobre questão agrária, um documentário sobre violência urbana ou uma visita a um abrigo de crianças, por exemplo. Comparando a Bíblia e a realidade à minha volta gostaria de confrontar dois textos, que nos ajudarão a compreender melhor o tema: o protagonismo social e político. a) Opressores e oprimidos
O primeiro dos textos se encontra no Antigo Testamento e pertence ao livro profético de Isaías. No capítulo 58, encontramos uma interessante denúncia acerca da hipocrisia e da falsa espiritualidade. Ali, o povo reclama que, no aspecto da religiosidade, “faz tudo conforme manda a cartilha”: jejua, se mortifica e pede leis justas, mas que não recebe as recompensas desejadas. A voz de Deus mostra então que o problema está no fato de que, no mesmo dia em que jejuam, esses religiosos exploram seus próprios empregados. A prática de fé é incompatível com uma prática de vida que tenha como fruto uma situação de injustiça. O texto segue então opondo o modelo do falso jejum (falsa espiritualidade, falsa relação com Deus) a uma proposta de genuíno jejum (relação libertadora com Deus consigo mesmo e com o próximo). O texto traz nitidamente: “Não continueis a jejuar como agora, se quereis que a vossa voz seja ouvida nas alturas!”. A relação com Deus pede uma mudança de atitude para com o próximo. Essa mudança/arrependimento/conversão, essa nova espiritualidade, enfim, o verdadeiro jejum exigido por Deus implica, segundo o texto, em “soltar as correntes da injustiça”, “desatar as cordas do jugo”, “pôr em liberdade os oprimidos”, “partilhar sua comida com o faminto”, “abrigar o pobre desamparado”, “vestir o nu que você encontrou” e “não recusar ajuda ao próximo”. O texto fala ainda de eliminar do meio em que se vive o jugo opressor e renunciar a si mesmo em favor do próximo. Fala também de fartura e plenitude de vida para quem assim agir, pois uma espiritualidade vivida com justiça traz recompensas concretas. Assim, a grande obviedade que Isaías nos faz enxergar é essa: se vocês querem justiça, então por que não a colocam em prática? b) Nós mesmos como protagonistas da nossa mudança
O outro texto encontra-se no Sermão do Monte (Mt 5, 6, 7). As felicitações proferidas por Jesus Cristo se dirigem aos seus discípulos e se estendem a toda a multidão que o ouvia. De novo o óbvio: se vocês querem justiça, busquem obtê-la de modo genuíno e terão êxito. Se querem justiça, esperem em Deus e serão satisfeitos. Essa espera, porémé feita de ação. Nas bem-aventuranças o que é mais interessante no movimento em direção a uma fé libertadora e a uma ação transformadora é que são os discípulos, os pobres e oprimidos, que transformarão sua própria realidade.
Jesus promete fartura para aqueles que têm sentido sede e fome de justiça. Os pobres, que sofrem com a injustiça, serão os protagonistas de sua própria transformação. Admitindo que o discipulado é para todo o ser humano que resolve hoje seguir a Cristo então compreenderemos que todo ser humano é co-protagonista da missão de Deus na terra.
Fonte/Autor: Fragmentos do artigo de Pedro Grabois – articulado